4. ECONOMIA 3.10.12

1. VEM PRA CAIXA VOC TAMBM?
2. FAAM O QUE EU DIGO, MAS...

1. VEM PRA CAIXA VOC TAMBM?
Os bancos pblicos derrubaram os juros e atraram milhes de clientes. O risco  a enxurrada no crdito inflar uma bolha.
MARCELO SAKATE

     A estabilidade econmica brasileira favoreceu o aumento rpido das concesses de crdito, um vetor fundamental para a expanso do consumo e do crescimento. H uma dcada, o volume total de emprstimos representava 25% do PIB. Esse porcentual dobrou. Mas a conjuntura externa adversa e o crescimento da inadimplncia fizeram com que os bancos privados restringissem a liberao de novos financiamentos, em uma compreensvel ao prudencial. Afinal, esses bancos devem prestar contas a seus acionistas. Para o governo, a retrao no crdito poderia reduzir ainda mais o j fraco crescimento brasileiro neste ano. Segundo a projeo mais recente do Banco Central, o PIB dever avanar um mdico 1,6%, o pior desempenho desde a recesso de 2009. O governo deflagrou ento uma cruzada pela queda nos juros bancrios, tendo como artfices os bancos pblicos.
     Nenhuma outra instituio financeira cresceu tanto como a Caixa Econmica Federal, banco controlado integralmente pelo governo e sem aes negociadas na bolsa. Em um ano, a Caixa ampliou a sua base de clientes em 6,4 milhes de pessoas fsicas, uma alta de 12%. O Banco do Brasil, igualmente controlado pelo estado, mas com parte das aes nas mos de investidores privados, amealhou 2,3 milhes de novos clientes. Nos ltimos doze meses, os emprstimos concedidos pela Caixa avanaram 45%, muito acima da mdia de mercado, de 17%. O BB elevou os emprstimos em 20%. Nesse perodo, em cada 100 reais emprestados no pas, 66 saram dos cofres dos bancos pblicos. A ofensiva da Caixa inclui a abertura de 2000 agncias em trs anos, a entrada no crdito agrcola e a criao de um banco de investimentos.
     Tamanho apetite suscita a desconfiana de especialistas. A Caixa, porm, nega ter relaxado sua anlise de riscos e garante que apenas aproveita as oportunidades decorrentes da reduo na taxa bsica de juros, a Selic, alm do bom aumento na renda da populao e do baixo desemprego. Disse a VEJA Mrcio Percival, vice-presidente de finanas da Caixa: At alguns anos atrs, com a inflao e os juros nas alturas, era fcil e seguro ganhar dinheiro com ttulos pblicos. Hoje, para um banco ser competitivo,  fundamental reduzir o custo do dinheiro, ter uma gesto eficiente dos recursos e atrair o cliente por meio da oferta ampla de servios. A Caixa  um dos bancos mais alavancados do Brasil  ou seja, fez um volume de emprstimos em relao ao seu capital bem mais alto do que seus concorrentes. No Brasil, a exigncia  que as instituies possuam ao menos 11 reais de capital para cada 100 reais emprestados. Na mdia, os bancos brasileiros tm cerca de 16 reais para cada 100 em emprstimo. Entendemos que, para utilizar melhor os recursos, podemos trabalhar com cerca de 13 reais para cada 100 emprestados, afirma Percival. Segundo ele, os resultados atestam que a estratgia  correta. A inadimplncia entre os clientes no cresceu (ao menos por ora) e o lucro aumentou.
     O crescimento da Caixa foi to rpido que poderia faltar dinheiro para atender  demanda. H duas semanas, o governo precisou recorrer a um artifcio contbil para repassar recursos tanto para a Caixa como para o BB, para que eles continuem a conceder crdito. Foram 13 bilhes de reais para a Caixa e 8,1 bilhes de reais para o Banco do Brasil. O dinheiro vir da emisso de novos ttulos pelo Tesouro. Com o aporte, a Caixa poder emprestar 120 bilhes de reais a mais at 2013. Os analistas se perguntam quem arcar com o prejuzo caso os emprstimos concedidos pelos bancos pblicos no sejam pagos. Se for o Tesouro, a conta, no fundo, ser dos brasileiros. Se for a Caixa, ento ela estaria dando um passo maior do que a perna e fragilizando-se como instituio financeira.
     A histria mostra que  temerrio usar instituies pblicas de crdito como brao de poltica econmica. No fim dos anos 90, nos Estados Unidos, o ento presidente Bill Clinton afrouxou as regras das hipotecas com o objetivo de tornar a compra da casa prpria acessvel aos mais pobres e aos cidados com pssima histria de crdito. Populismo puro. Anos mais tarde, essa liberalidade ajudou a inflar a bolha imobiliria que deu origem  crise de 2008. No existe economia que funcione sem crdito. Mas crdito  dinheiro e, portanto, tem um custo, que depende de quanto os poupadores esto exigindo para emprestar dinheiro aos gastadores, operao que  intermediada pelo sistema bancrio. Quando os bancos pblicos entram pesadamente nesse negcio alavancados pelo Tesouro, produzem uma distoro que pode virar bolha ou no  mas, com certeza, joga a conta para o futuro.

TORNEIRA ABERTA
De cada 100 reais em crdito novo liberado na economia brasileira neste ano, 66 saram de bancos pblicos. A Caixa e o Banco do Brasil sustentaram o aumento dos financiamentos.

EMPRSTIMOS
Total das concesses de crdito nos ltimos doze meses, em reais: 321 bilhes
Bancos privados nacionais: 60 bilhes  19%
Bancos privados estrangeiros: 47,5 bilhes  15%
BANCOS PBLICOS: 213,5 bilhes  66%

AUMENTO NO CRDITO
ltimos doze meses
Caixa Econmica Federal: 45%
Banco do Brasil: 20%
Santander: 17%
Bradesco: 16%
Ita: 13%


2. FAAM O QUE EU DIGO, MAS...
Na ONU, Dilma ataca os pases ricos que manipulam o comrcio, mas se cala sobre o protecionismo brasileiro.

     Mesmo repudiando os atos de terrorismo que vitimaram diplomatas americanos na Lbia, a presidente Dilma Rousseff usou parte dos 24 minutos de seu discurso, na semana passada, perante a Assembleia-Geral da Organizao das Naes Unidas (ONU) para criticar o preconceito islamofbico dos pases ocidentais. Os jarges generalistas emitidos pela presidente brasileira sobre geopoltica no tiveram a mnima repercusso  principalmente porque nunca houve na histria recente tanta tolerncia religiosa, tantos afagos polticos aos pases islmicos e at cegueira em relao aos movimentos dos grupos radicais. Repercutiram bem mais as afirmaes de Dilma de natureza econmica: No podemos aceitar que iniciativas legtimas de defesa comercial por parte dos pases em desenvolvimento sejam injustamente classificadas como protecionismo. O protecionismo e todas as formas de manipulao do comrcio devem ser combatidos, pois conferem maior competitividade de maneira espria e fraudulenta. Esses so argumentos de diplomatas em encontros de terceiro escalo, no um discurso de chefe de estado. O protecionismo  nocivo quando adotado por pases, sejam eles desenvolvidos ou em desenvolvimento. 
     Atacar os ricos  terceiro-mundismo que teve lugar quando ainda existia a bipolaridade da Guerra Fria. Agora  gua com acar. Dilma quis responder a Ron Kirk, representante comercial americano, que, em carta a Antonio Patriota, chanceler brasileiro, reclamou do aumento das tarifas de importao do Brasil, que ele qualificou de medidas protecionistas. Elevar de uma s tacada para at 25% as tarifas de 100 itens importados como fez o Brasil no  propriamente um incentivo ao comrcio internacional, mas  protecionismo? Disse Patriota sobre Kirk: a carta  injustificvel e inaceitvel, tanto no contedo como na forma. Para Dilma, o Brasil agiu em defesa legtima. Protecionismo esprio e fraudulento, segundo ela,  o que fazem os bancos centrais dos pases ricos ao injetar bilhes em suas economias levando  valorizao artificial da moeda dos pases em desenvolvimento.
 intil apontar o dedo para os ricos  quando h tanto por fazer no Brasil internamente (veja a Carta ao Leitor na pg. 13). Primeiro, porque eles no vo deixar de fazer o que acham certo por ouvir conselhos ou temer crticas de outros pases. Segundo, porque eles tm a fora. O Brasil  uma das economias mais fechadas do mundo e tem parcela indigente do comrcio mundial  pouco mais de 1%. Se os bancos centrais dos pases ricos no atuarem para evitar a recesso, eles perdem, mas o Brasil perde muito mais, pois depende, em 36% das suas exportaes, do mercado consumidor delas. Mais persuasivo seria fazer como o personagem de Humphrey Bogart no filme Casablanca, quando acusado pelo coronel nazista de estar sempre ao lado dos mais fracos, da raposa: Eu entendo o ponto de vista dos ces de caa tambm.

QUEM  PROTECIONISTA?
Em diferentes indicadores do comrcio, o Brasil aparece entre os pases mais fechados do mundo.

IMPORTAES
Total em dlares e participao mundial
EUA: 2,3 trilhes (12,3%)
China: 1,74 trilho (9,5%)
Alemanha: 1,25 trilho (6,8%)
ndia: 451 bilhes (2,5%)
BRASIL: 237 bilhes (1,3%)

TARIFA MDIA DE IMPORTAO
Alemanha: 0,9%
EUA: 1,4%
China: 11,5%
BRASIL: 11,6%
ndia: 12,6%




